Libero as idéias
enquanto eu, aqui,
gastando o mar
vejo a hora passar.
As ondas batem nas pedras
e o silêncio desaparece.

O tempo passa e eu,
aqui, gastando o mar
escuto o canto de Janaína,
Inaê, Iemanjá.
Ela canta pra mim,
encanta, quebranta.

O vento vagueia moribundo,
e eu, aqui, gastando o mar.
Mortejo, soluço.
Peço para não lembrar,
mas só o pedido
me faz não esquecer.

Pés flutuantes na areia
e eu, aqui, dessa vez,
de costas pro mar.
Ele me abraça, me chama,
me arrasta.
Pelas idéias, pelo encanto,
pelo esquecimento,
estamos em tempo de
equívocos e desentendimentos
e repudiando-nos, amamo-nos.




perco-me em meus
devaneios escassos
e em poucos instantes
retomo a lucidez
penso naquilo que poderia ter feito
e no que jamais faria
sabendo que a linha
que separa sim e não
é menor do que a que imagino
penso na asneira que poderia
ser dita no momento em
que os meus devaneios
tornaram-se densos, intensos
e que na lucidez ela poderia
vir a aparecer desastrosamente
então, volto aos meus devaneios lúcidos
e ao deparar-me com esse choque:
grito!
grito enlouquecedor, suor frio
lábios rachados, olhos cerrados
dedos entrelaçados, aflição!
quando percebo que a alma escapou
um novo grito.
dessa vez, o grito final.
ela volta.
corpo estirado, elucidação.

Vanessa da Mata - Amado

[in]cômodo

Maria Bethânia - Cântico Negro


[in]cômodo sombrio
[in]cômodo repleto de significado
[in]cômodo é grotesco, medonho
[in]cômodo à direita, ala feminina
[in]cômodo à esquerda, ala masculina
[in]cômodo ao fundo, Santo Antônio
[in]cômodo ao teto, às ruínas
[in]cômodo às paredes, mofo
[in]cômodo ao chão, marcas
[in]cômodo passado no presente
[in]cômodo acomoda almas
[in]cômodo pinta trevas
[in]cômodo enoja
[in]cômodo excludente
[in]cômodo de dor
[in]cômodo de grito
[in]cômodo incomodante e perturbador
[in]cômodo senzala

Parabéns, Cássia! 10/12


Este é um livro que vale à pena ser lido!
Ganhei de aniversário ano passado e até hoje não largo dele!
O livro é emocionante e comovente do início ao fim. Mostra-nos uma Cássia tímida que nunca víramos antes, uma Cássia totalmente diferente de sua descontração eno palco.
Toda a poesia contida nessa grande cantora que nunca tinhamos visto antes está descrita ao longo do livro.
Fala de seus romances, suas malandragens, sua família, seus desejos, encontros com Nando Reis, Renato Russo, etc.
Cássia morreu em 29 de dezembro de 2001, dezenove dias após completar 39 anos, e deixou uma enorme saudade, pelo menos para mim!

Algumas passagens:

Cassia sendo entrevistada por um locutor de rádio:
"-Você é daqui de Brasília?
-Não, eu moro aqui.
-Onde?
-Em casa. Com meu marido e meus três filhos. Meu marido é caminhoneiro. Beijo pra você amorzão."

"As rosas não falam, mas as margaridas sim."

"Crianças invisíveis"?

Hoje eu vi.Hoje eu vi três negrinhos, mulequinhos. Os vi lá, sentados na linha do trem como quem senta na beira de um rio e se põe a contemplar a natureza. Mas eles não contemplavam a natureza, nem mesmo as pernas das mulheres de saia que passavam na passarela que situava-se acima de suas cabeças mirradas. Não comtemplavam nada. Um apenas chorava. Outro tentava consolá-lo. O outro, de cabeça baixa, mexia nas pedras que estavam por toda parte. Posso vê-los. Parecem estar aqui, a minha volta. Posso ouvir o choro de um abafando a voz do outro somado ao barulho das pedras que o terceiro mexia. Dois sem camisa, um de camisa vermelha, bermudas rasgadas e seis pés descalços. Para uns, sãoapenas números. Para outros são dor. Minha esperança se esvai quando os olhos ficam rasos. Mas não, não posso deixa que ela se esvaia assim!
Seriam essas crianças invisíveis? Não. Elas não são invisíveis, estão ali, de fato. Existem e sofrem. Seriam eles (aqueles lá) cegos? Não. Eles não cegos. Apenas fingem essa cegueira pois se beneficiam dela. E mais tarde, eles considerarão essas crianças- agora adultas- o ANTÍGENO DA SOCIEDADE, e aí, passaram a ser visíveis, notados e essa visibilidade os farão chegar a conclusão de que são marginais. E essa mesma visibilidade os farão temê-los. "Crianças invisíveis, adultos temíveis"? Solução? Aqueles acham que a única solução para exterminar estes antígenos é a ação dos anticorpos e põem, plantados, nas bocas das favelas os agentes da "Gurda Nacional", tentando passar uma imagem superficial de segurança. Segurança para quem? Para nós das favelas, que não pagamos impostos?

Aaahhhh....não vou finalizar o texto.....sabe porque? Tô de saco cheio, com sono e com o dedo inchado e roxo, pois fiz a bênção de prendê-lo no ventilador de teto....cansei...não quero mais escrever. Vou dormir. Tchau e boa noite!
Ah! Beijos pra Betina e pra Joice! Adoro vocês!
 
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